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Compliance e rastreabilidade redesenham mercado de ouro e ampliam segurança para a cadeia joalheira

Publicado em 20/08/2026

Painel realizado na 83ª FENINJER discutiu a transformação do mercado nos últimos anos, os avanços na formalização, a entrada de instituições financeiras e os desafios para garantir que o ouro legal e rastreável chegue à indústria.

São Paulo, 20 de agosto de 2026.

A transformação do mercado brasileiro de ouro, impulsionada por mudanças regulatórias, pelo avanço da rastreabilidade e pelo fortalecimento dos mecanismos de compliance, esteve no centro da mesa-redonda “A Importância do Compliance na Cadeia de Comercialização do Ouro”, realizada nesta quinta-feira (20), durante a 83ª FENINJER, no Transamerica Expo Center, em São Paulo.

O encontro reuniu Eduardo Gama, fundador da Certimine; Larissa Rodrigues, diretora de Pesquisa do Instituto Escolhas; e Alexandre de Praxedes, diretor de Compliance do Ouribank. O debate analisou as mudanças ocorridas desde 2022 e os desafios para estruturar uma cadeia capaz de conectar a produção mineral legal ao sistema financeiro, à indústria joalheira e ao consumidor, com maior transparência e segurança.

Na abertura, Eduardo Gama lembrou que a rastreabilidade do ouro era um tema ainda relativamente novo para o setor joalheiro há cerca de três anos e ressaltou a evolução observada desde então. Como sinal dessa mudança, destacou a presença de uma instituição bancária discutindo o mercado de ouro dentro da FENINJER, cenário que, segundo ele, seria difícil de imaginar naquele momento.

Mudanças regulatórias transformam o mercado de ouro

Ao apresentar um panorama da transformação do mercado, Larissa Rodrigues destacou a implementação da nota fiscal eletrônica nas operações com ouro como um dos principais avanços para a formalização da cadeia. A medida, somada ao fim da chamada presunção de boa-fé, provocou uma mudança significativa na dinâmica da comercialização a partir de 2023.

Para dimensionar o cenário anterior às mudanças, Larissa apresentou estimativas sobre a presença de ouro com indícios de irregularidade no mercado.

“Até aquele momento, em 2022, pelas nossas estimativas, 87% do ouro de garimpo que chegava ao sistema financeiro tinha fortes indícios de ilegalidade. Então, era um volume muito alto”, afirmou a diretora de Pesquisa do Instituto Escolhas.

Com as novas exigências, parte expressiva do ouro que anteriormente chegava ao mercado formal deixou de circular pelos mesmos canais. O movimento reduziu a concorrência do ouro com indícios de ilegalidade com a produção regular, mas trouxe novos desafios para a cadeia.

A saída ou redução da atuação de agentes que tradicionalmente faziam a intermediação do metal gerou um estrangulamento na comercialização, inclusive para produtores formalizados. Ao mesmo tempo, abriu espaço para que organizações mais estruturadas passassem a participar desse mercado.

Para Larissa, o processo representa uma transformação que ainda está em andamento. Apesar da redução da participação do garimpo no mercado, ela ressaltou que existe uma produção legal relevante que precisa encontrar canais seguros de comercialização.

“A gente tem pelo menos 6, 7 toneladas de ouro de garimpo legalizado, completamente formal, que estão no mercado. Isso é bastante ouro. Então, a gente precisa garantir que esse seja o ouro que vocês tenham acesso”, destacou.

Ela apontou ainda um movimento de amadurecimento de parte dos pequenos produtores. Alguns garimpos legalizados vêm se estruturando e evoluindo para pequenas mineradoras, ampliando as possibilidades de comercialização por meio do sistema financeiro, da venda direta, da exportação e do fornecimento à indústria joalheira.

Bancos ampliam participação em um mercado mais estruturado

A entrada de instituições financeiras no debate sobre o ouro foi apontada como um dos sinais da nova configuração do mercado. Alexandre de Praxedes explicou que as mudanças regulatórias e o avanço dos mecanismos de controle contribuíram para criar maior convergência entre as exigências do sistema financeiro e a realidade da cadeia mineral.

Nesse novo cenário, o processo de análise de clientes e operações considera não apenas documentos, mas a compreensão da cadeia como um todo, da produção à comercialização.

Para o diretor de Compliance do Ouribank, a disponibilidade e a qualidade das informações são fundamentais para reduzir riscos.

“A primeira coisa que dá muita segurança para o banco é disponibilidade de dados. Quando você vai conversar com um minerador, um garimpeiro, que conhece bem os próprios processos e tudo que você pede ele tem à mão, isso dá uma tranquilidade muito grande para a gente”, afirmou.

A avaliação envolve ainda os processos produtivos, as condições em que as atividades são realizadas, aspectos socioambientais e a rastreabilidade. Segundo Praxedes, quanto maior a capacidade de demonstrar a regularidade das operações, melhores são as condições para estabelecer relações com o sistema financeiro.

Esse movimento pode ter reflexos diretos sobre o acesso a crédito, operações de câmbio e outros serviços bancários, além de contribuir para criar novos canais de escoamento para o ouro produzido legalmente. Praxedes ressaltou que as instituições financeiras podem desempenhar um papel de transformação da cadeia à medida que o mercado avança em formalização e controle.

Rastreabilidade precisa ir da origem ao produto final

Outro ponto central do painel foi a necessidade de compreender a rastreabilidade como um processo que não termina na identificação da área de extração. Para que as boas práticas se convertam em confiança e valor de mercado, as informações precisam acompanhar o ouro ao longo da cadeia.

“A rastreabilidade acaba ficando muito presa à origem, só que ela não pode parar na origem. […] É importante que todo o direcionamento dentro da cadeia seja rastreado, porque isso vai fazer com que o Brasil seja visto de uma forma diferente”, afirmou Praxedes.

Segundo o executivo, sem a capacidade de comprovar as práticas adotadas ao longo da cadeia, os investimentos realizados em conformidade não conseguem ser plenamente reconhecidos e transformados em valor para empresas e consumidores.

Nesse contexto, Eduardo Gama destacou a atuação do próprio setor joalheiro na construção de soluções de rastreabilidade e citou especificamente o trabalho desenvolvido pelo IBGM na Baixada Cuiabana, em Mato Grosso.

“O setor joalheiro está apoiando. O IBGM está aqui apoiando, o IBGM está fazendo um piloto lá na Baixada Cuiabana de ouro rastreável, ouro com blockchain. Então existe investimento do setor joalheiro, sim, na rastreabilidade”, afirmou.

Gama ressaltou que o avanço desse processo depende também de valorizar os produtores que investem na formalização e nas boas práticas. Para ele, compradores e empresas do setor joalheiro podem contribuir ao demandar ouro de produtores cuja origem e condições de produção possam ser demonstradas, fortalecendo economicamente quem atua dentro da legalidade.

Formalização deve gerar vantagem competitiva

O debate mostrou ainda que compliance e rastreabilidade não devem ser vistos apenas como obrigações ou custos adicionais. Quando incorporados de forma consistente à gestão, podem facilitar relações comerciais e financeiras e se transformar em vantagem competitiva.

Praxedes destacou que empresas menores não precisam reproduzir a estrutura de compliance de um banco. O fundamental, segundo ele, é manter coerência entre decisões, processos e documentos, conhecer aquilo que se compra e conseguir demonstrar de onde vem e para onde vai o produto.

“Essa consistência como um todo em termos de controle, de rastreabilidade, de saber de onde vem, para onde vai, isso, na minha visão, transforma o mercado e abre portas que hoje não estão de fácil acesso”, afirmou.

Na avaliação apresentada durante o painel, a formalização pode contribuir inclusive para enfrentar um dos obstáculos históricos dos pequenos produtores: o acesso ao financiamento necessário para investir em equipamentos, produtividade e boas práticas. O fortalecimento da relação entre mineração, indústria e sistema financeiro cria, portanto, oportunidades que vão além do controle regulatório.

Integração de informações ainda é desafio

Apesar dos avanços, os participantes ressaltaram que a reorganização do mercado ainda exige aperfeiçoamentos. Entre eles está a criação de um sistema mais integrado de informações sobre a produção e a circulação do ouro.

Larissa defendeu uma estrutura na Agência Nacional de Mineração (ANM) capaz de reunir informações dos produtores e acompanhar documentalmente o percurso do metal. A integração desses dados com outros órgãos, como a Receita Federal, poderia fortalecer a gestão pública, melhorar a fiscalização e proporcionar maior segurança aos agentes que atuam regularmente.

A diretora do Instituto Escolhas apontou ainda a necessidade de estabelecer caminhos mais claros para a evolução dos pequenos produtores, incluindo mecanismos que facilitem a transição de garimpeiros formalizados para estruturas empresariais de mineração e programas permanentes de assistência técnica.

Para a indústria joalheira, Larissa deixou uma orientação objetiva sobre um instrumento já disponível e fundamental para avançar na formalização da cadeia: a nota fiscal.

“Às vezes, é um projeto de lei de rastreabilidade, é isso, é aquilo, mas, com nota fiscal, a gente já faz muita coisa, a gente já está um passo de chegar onde a gente quer. Então, joalheiro, foque na nota fiscal”, afirmou.

Construção de uma cadeia responsável

O painel evidenciou que o mercado brasileiro de ouro atravessa uma transformação estrutural. Se, por um lado, as novas exigências provocaram mudanças profundas nos canais tradicionais de comercialização, por outro, criaram condições para distinguir melhor a produção regular, ampliar a participação de instituições financeiras e avançar na construção de uma cadeia mais transparente.

Os participantes destacaram que esse processo exige atuação coordenada de produtores, instituições financeiras, indústria, entidades representativas e poder público. Para Alexandre de Praxedes, a combinação dos esforços de cada elo pode fazer com que o país avance não apenas em tecnologia, mas se torne referência em processos e rastreabilidade.

Para o IBGM, o fortalecimento de mecanismos que permitam comprovar a origem do ouro, acompanhar sua circulação e reconhecer quem atua dentro da legalidade é fundamental para ampliar a segurança da indústria joalheira e agregar valor ao produto brasileiro. A experiência em desenvolvimento na Baixada Cuiabana com o Projeto Ouro Sem Mercúrio reforça essa agenda e demonstra o compromisso do setor com a construção de soluções que conciliem rastreabilidade, responsabilidade, competitividade e acesso a mercados.